terça-feira, 1 de julho de 2014

Escrevemos ou não escrevemos, Lisboa?



O Miguel Manso, dono do estúdio Xposed,  pôs-nos a sala naquele brinquinho. 
E a turma do Escrita Habitual correspondeu - olha para elas, concentradíssimas.

workshop Escrita Habitual de Lisboa foi tão bom que me apetece ir lá outra vez, passar mais um sábado com aquelas doze cachopas divertidas e empenhadas. Começou a correr bem no período de aquecimento, quando lhes mandei mensagens de motivação e um trabalho de casa - responderam com entusiasmo e, como eu esperava, a dizer que não tinham jeito para escrever, que não lhes saíam como queriam, que nunca sabiam como começar. Claro que já estavam a começar, mas ainda não tinham reparado nisso.

Correu bem quando fui na noite anterior ver o estúdio do Miguel, que ele preparou com esmero para nos acolher. Arrumadinho, impecável, com o material todo a postos. Na manhã seguinte, aparece-me uma turma incansável, que fez uma série de exercícios sem se queixar, com uma energia concentrada e firme. No final do dia tinha produzido uma série de textos muito bons, soltado a sua inspiração e, em alguns casos, encontrado uma voz que desconhecia em si.

Ver isso acontecer em tão poucas horas é o combustível que me faz estar continuamente a aperfeiçoar o workshop, a pensar em exercícios novos, mais interessantes, a enriquecer o manual, a reunir material para criar um módulo avançado do curso. Toda a gente é capaz de escrever e não é preciso decorar um dicionário cheio de palavras novas, nem é preciso transpirar de esforço, nem esperar que caia sobre nós uma luz divina que nos faça escritores.

O que é preciso é quebrar alguns preconceitos em relação à escrita, encará-la como uma competência que se pode aperfeiçoar e depois treinar muito, para melhorar e encontrar um estilo. E também como uma capacidade que evolui e se transforma ao longo do tempo. Há boas práticas que podemos aprender, embora nenhuma seja uma ciência exacta. Mas para começar a escrever, tal como para começar a cozinhar, temos que pegar no livro de receitas e medir tudo. Ao fim de algum tempo, as quantidades e os temperos tornam-se intuitivos.

É isso que acontece no Escrita Habitual - deixamos para trás o medo de não ser capazes e arriscamos. Passa-se uma barreira e depois, olhando para trás, vemos como essa barreira não era assim tão grande. A prova disso é que toda a gente escreve e, mais do que isso, escreve textos muito bonitos. No sábado, até houve umas lágrimazitas. E muitas gargalhadas. E uns aaaahhh de emoção, quando alguns textos foram lidos.
Que mais podia eu querer?
Mais nada. É isto. E isto é tanto.

(post também publicado no blog Locais Habituais)

domingo, 22 de junho de 2014

Vagas esgotadas para o workshop de dia 28 em Lisboa! Vamos ao próximo?

Esgotaram as vagas para o Escrita Habitual de Lisboa, no dia 28, na LX Factory. Vai ser fantástico ter uma sala cheia de gente muito motivada para encontrar o seu caminho na escrita e aprender a escrever melhor. Se és da zona de Lisboa e ficaste com pena de não conseguir frequentar este workshop, não desanimes, que podemos fazer outro já a seguir. Faz uma pré-inscrição para o próximo Escrita Habitual, enviando um mail com o teu nome e contacto para locaishabituais@gmail.com.

Vamos vencer inseguranças e bloqueios e dar asas à nossa escrita!

quarta-feira, 30 de abril de 2014

A caixa de ferramentas para começar a escrever


A maioria das pessoas diz que não tem jeito para escrever. E, no entanto, a maioria das pessoas é capaz de escrever. Mais do que isso, é capaz de escrever bem e com muito jeito. Porque é que temos tendência a pensar que não somos capazes de escrever e não temos talento para a escrita? Porque o acto de escrever, que devia ser um acto normal e corrente, está rodeado de mitos e de uma solenidade que criam bloqueios. Pensamos que escrever não é para nós, dizemos que escrevermos mal e não sabemos alinhar duas frases, que o que escrevemos não presta e temos vergonha de escrever.

Pensamos ainda que a nossa vida e as nossas experiências não são suficientemente interessantes para escrevermos sobre eles. Por causa desses bloqueios, muita gente nem sequer chega a tentar escrever. Mas todos gostamos de ler sobre a vida das outras pessoas. Porque não acreditamos que a nossa vida pode ser igualmente interessante? Um exemplo: um dos posts mais lidos de sempre do meu blog Locais Habituais é o relato de como fui apanhar diospiros e caí. Todos os dias, há sempre alguém novo a ler esse post. No entanto, é um momento que eu podia ter resumido assim: ao entardecer, a minha filha foi brincar no jardim e eu decidi apanhar diospiros, pus-me em cima de uma cadeira e caí de costas. Mas preferi escrever isto. Só ao escrever é que dei conta como esse momento banal estava cheio de detalhes divertidos e sumarentos.

Escrever para partilhar, escrever para informar, escrever para trabalhar, escrever por prazer. É muito bom ter facilidade em escrever, seja no trabalho, no voluntariado, no grupo de música ou de teatro em que participa, nas festas e cerimónias da família ou da nossa  terra, na escola ou na faculdade. Queremos escrever os nossos emails e  documentos de trabalho de forma a comunicarem melhor e com mais clareza. Queremos ser mais organizados e mais rápidos. Queremos ser mais confiantes na nossa escrita e ter mais prazer em escrever. Queremos pegar em todas as ideias que dançam na nossa cabeça e escrever um blog, um diário, mensagens que outras pessoas gostem de ler.

Não é preciso sermos virtuosos da escrita para sermos bons escritores no quotidiano. O que é preciso é encarar a escrita como uma competência, da mesma forma que encaramos a culinária, a música, a dança e outras artes. Ninguém nasce ensinado a tocar guitarra ou piano, a cozinhar ou a dançar a valsa. Todos temos que aprender e quanto mais praticamos, melhores nos tornamos. Com a prática, é que encontramos a nossa expressividade. Com a escrita, é a mesma coisa e a oficina Escrita Habitual destina-se a ensinar a competência da escrita e estimular a sua prática quotidiana.

Destina-se a pessoas que querem ser melhores escritores no dia-a-dia e que se sentem inseguras, bloqueadas, de mãos atadas diante da folha branca. Vamos falar de como soltar e organizar ideias, de composição e edição, de formas de dar mais sabor aos nossos textos e vamos ainda fazer exercícios muito divertidos e estimulantes, que incluem um pequeno passeio pela cidade para nos inspirarmos,

A oficina Escrita Habitual é a caixa de ferramentas que vai permitir começar a escrever mais e melhor, para sempre. E todos os participantes levam um manual, criado de raíz para a oficina, onde poderão, em casa, rever a matéria dada e recordar as técnicas sempre que precisarem.


terça-feira, 22 de abril de 2014

Sobre como a tecla 5 me fez uma pessoa melhor

No primeiro dia de férias, o meu iphone avariou. Deixou de carregar. Uma passagem pela Vodafone mais próxima confirmou a nossa suspeita de que mais valia trazer o bicho à assistência técnica da casa mãe, aqui no Porto, e torcer para que seja coisa pouca. Tenho aquele telemóvel há mais de três anos e mudou o meu quotidiano. No início, foi uma mudança muito intensa porque eu tive poucos telemóveis, nenhum com câmara fotográfica ou do estilo smartphone, usei-os até se estragarem ou até os perder e o último foi um Nokia que adorei e usei ainda algum tempo, mesmo depois de se estragar a tecla 5. Só podia ligar para números da memória ou sem cincos e tornei-me perita em mandar sms sem as letras j,k e l.
Depois desse telemóvel, já confirmei noutros contextos que o meu engenho só se revela com grandiosidade nas alturas de escassez, nos apertos ou nas emergências. Olhando em retrospectiva para a minha vida, para a forma como atravessei anos de inquietação interior dando mínimo uso aos meus talentos, concluo que a presença de alguma forma de escassez ter-me-ia certamente feito saltar dessa carruagem em andamento e enfiar-me numas botas de sete léguas. 

Quando falo em escassez, não me refiro especificamente a dinheiro, embora também tenha aprendido muito com a escassez financeira. Falo da escassez de muitas coisas, incluindo as não materiais, como a escassez de interesse pelo trabalho, que sempre me fez saltar para desafios onde aprendi muito, mesmo que em alguns me tenha espetado de frente, nomeadamente quando aceitei ser editora da secção mais dinâmica de um jornal diário. Foram dez meses de sobrevivência física e mental, sendo mãe de uma bebé. Foi uma desgraça a todo o comprimento, mas saí de lá melhor e mais forte. Aliás, acho que sair revigorada e mais forte das tristezas, desgraças, infortúnios e más escolhas é aquilo que melhor define o meu caminho no mundo (e com isto, Sílvia, lembrei-me de uma coisa que me perguntaste, mas depois contamos tudo às pessoas).
Neste caso, não falamos da impactante lucidez que sinto nos momentos de tristeza, como se me saísse um véu de diante dos olhos. Falamos apenas de ter ficado sem um telemóvel que é um pequeno computador onde guardo muitas notas com informações úteis, como números de contribuinte, telefones e passwords que devia ter decorado. Ou ainda do qual recebo e envio emails, mais do que aqueles que seriam necessários porque o email é a nova sms. Onde ia ao facebook por desfastio, embora o facebook seja muito enfastiante. E também onde guardo mais de três mil fotografias que devia ter copiado, de quando em quando, para o computador. Perder essas imagens é que me dói mais, mas ter passado uma semana sem mail, sem facebook, sem internet e sem estar sempre a levar o meu pequeno braço tecnológico para todo o lado foi inesperadamente bom.

Apesar de ser cismenta e melindrosa, com o tempo deixei de ser ressentida e rancorosa, algo que aconteceu naturalmente e sem eu dar por isso. Foram sentimentos que se evaporaram da minha alma sem mais nem menos. A ausência deles faz jeito em geral e aplicou-se também à entrada em coma do meu iphone - foi um suspiro pela tecnologia diária que se foi e mais nada. De maneira que agora sou proprietária de um telemóvel à moda de 2004, com teclas e uma iconografia tipo spectrum, com toques tão anacrónicos que parecem tirados de maus filmes de robôs e tão pequeno e levezinho que andei duas horas com ele no bolso das calças hoje de manhã sem dar conta.
Também está há uma semana sem precisar de ser carregado, o que me traz muitas memórias do meu Nokia que faleceu em 2010. Quando este ficar sem a tecla 5, vou ser uma pessoa muito melhor e irá emergir em mim o canivete suíço de recursos criativos que o iphone estava a obliterar.

Até pode ser que já esteja a acontecer isso porque vim aqui escrever sobre as fotografias que queria ter tirado e não tirei e de como isso me fez criar um novo exercício de escrita para a oficina Escrita Habitual. Escrevo a seguir sobre isso. Por falar em Escrita Habitual, vai haver mais uma edição desse curso que liberta os escritores latentes, fazendo-os rasgar a roupa como Hulks com teclados debaixo do braço, no próximo dia 17 de Maio, no Porto. Inscrições para o mail locaishabituais@gmail.com.

(Post publicado também no blog Locais Habituais)

quinta-feira, 6 de março de 2014

Para escrever, basta ser aquilo que somos. E meia dúzia de palavras

(Sala do estúdio Xposed, na LX Factory, onde vai ser o Escrita Habitual de Lisboa. DR Miguel Manso)

A oficina Escrita Habitual começa quando as pessoas se inscrevem e lhes peço um trabalho de casa. Quando nos juntamos numa sala para passar o dia a pensar na nossa escrita, a descobrir os nossos caminhos expressivos, a escrever e a editar a escrita, a escolher as palavras melhores e mais cheias do nosso sentido, estamos no segundo momento. O primeiro é íntimo, solitário, secreto. Quando olhamos para trás e analisamos esse momento, compreendemos como ele é muito maior do que parecia. Como o processo que ele iniciou nos diz tanto sobre a nossa relação com a escrita. E sobre as nossa capacidade de a tornar um hábito.

Por isso, quando me perguntam se a oficina Escrita Habitual é um dia, eu tenho que dizer que sim, porque estamos juntos das nove às seis, mas eu sei que o caminho começa antes. Na semana anterior, nos dias anteriores, na noite anterior para alguns. Mas começa antes. Quando nos encontramos, numa sala neutra, já se abriu a tampa do baú da liberdade expressiva e eu só tenho que a segurar para que ela não volte a fechar. 

Eu acredito que toda a gente é capaz de escrever. A escrita não é um território exclusivo de virtuosos ou de diletantes, de artistas ou de filósofos. A escrita é um território de todos os que sabem palavras, os que processam significados, os que pensam, os que vivem. Escrever torna tantos momentos melhores. Só percebemos isso quando encontramos alguma coisa que escrevemos há anos. Quando os nossos parentes que partem nos deixam memórias escritas. Quando um texto lido numa festa ou numa homenagem emociona as pessoas e amplia aquela cerimónia. 

Não é preciso ser sábio, ser intelectual profissional, ter corrido o mundo ou ter lido todos os livros, visto todos os filmes, conhecido milhares de pessoas. Para escrever, basta aquilo que já sabemos e aquilo que queremos dizer - esse é o meu lema. E não vou desenvolver mais, quem quiser ouvir o resto, que apareça na próxima oficina Escrita Habitual!

Quando recebo mails a dizer que a tampa voou para longe e nunca mais volta, fico emocionada. É certo que ao fazer o workshop, ganho dinheiro. O meu objectivo era esse, claro. Mas também me realiza muito enquanto pessoa que acredita que a competência da escrita deve -  e pode - ser ensinada a toda a gente. Que o mundo perde muito porque as pessoas de hoje não escrevem para amanhã. Que as pessoas que sentem o apelo da escrita são mais felizes e mais criativas quando escrevem regularmente. E são mesmo - há estudos que provam que escrever regularmente aumenta o pensamento crítico. 

Por isso, produzi um manual, uma espécie de sebenta de estudo, que é para os meus escritores habituais levarem para casa e consultarem quando quiserem. Podia não o ter feito, deu-me um trabalho enorme e ainda vai dar mais porque será melhorado e ampliado. Ao dar esse manual, sei que o Escrita Habitual vai continuar com as pessoas, vai poder ser recordado. E que, ao relê-lo, as pessoas provavelmente vão continuar a escrever, com a certeza de que são capazes, vão manter-se em contacto com a sua motivação e inspiração.

No dia 22, em Lisboa, vamos passar algumas horas naquela sala porreira do estúdio Xposed, na LX Factory. Vamos cá fora almoçar e absorver o ambiente para depois, no momento que antecipo já de pura magia, como foi no workshop do Porto, jorrarem maravilhas daquelas folhas brancas. E no final, eu despedir-me de gente cansada e alegre, de cujas cabeças quase se podem ver textos a voar para todos os lados.

(Também publicado no blog Locais Habituais)

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Escrita, escrita voa voa


Eu sabia que coisas boas iam acontecer dentro daquela sala de formação, porque já tinha visto isso acontecer antes. Sabia que quando as pessoas dizem que não sabem como dizer isto ou aquilo, já trazem resolvido o maior problema - a falta de assunto. Têm o pensamento a formigar, os dedos a bater nervosos na mesa, a filha branca à frente. Nesse momento, ainda não sabem que tudo aquilo que precisam para escrever já está com elas.
A supresa não foi ver a escrita a soltar-se, com os estímulos certos, depois de falarmos de técnicas e de boas práticas, de aprendermos a detectar o que está a mais ou a menos, de olharmos para os nossos textos munidos destes conhecimentos. Ver alguém perceber que é capaz, é sempre o prémio de quem ensina, mas a surpresa não foi essa. O surpresa foi, no final da tarde, eu ficar com vontade de me calar para sempre e ficar só a ouvir os textos lindos, empolgantes, comoventes, inesperados, que nasceram naquelas folhas brancas. Esperava ver escrita a soltar-se, não estava à espera que onze bons escritores emergissem em apenas algumas horas. 
Os meus onze estavam interessados e concentrados; trabalharam com dedicação mesmo nos exercícios de edição entediantes que lhes propus. Foram severos em relação às suas falhas, quase sempre severos demais. Esse rigor excessivo preocupou-me, mas depois teve o efeito de uma trovoada que limpa o ar. Escreveram sobre momentos que nunca me ocorreu escrever, contruíram frases de maneiras que nunca pensei juntar, coseram palavras como eu nunca tinha cosido, fizeram textos que nos levaram a todos para lugares diferentes daquela sala neutra onde passamos tantas horas juntos. 


Quando fomos dar uma volta na Praça Carlos Alberto, com ela de mesa posta de árvores floridas, o mercado Porto Belo, um céu azul e uma brisa morna, já o meu grupo tinha começado o seu caminho sem retorno. Aquele que os leva a olhar para a sua escrita como um acto consciente, que podem controlar, trabalhar, exercitar e fazer evoluir.
Os exercícios de escrita que resultaram desse passeio foram muito, muito bons. Dez minutos numa praça florida e buliçosa, debaixo de um céu azul, foi quanto bastou para abrir a inspiração e partir o cimento dos bloqueios. É certo que escrevemos através das molduras que eu propus, mas escrever é sempre isso - procurar uma moldura e trabalhar a partir dela.
No final, a Carla disse "passou tão rápido!" e quando hoje fui ver o blog dela - Andorinha boa boa - e encontrei isto, percebi que nenhum minuto se desperdiçou. Foi extraordinário ter começado a minha carreira de mestra de escrita para o dia-a-dia com uma turma daquela categoria. Mas algo me faz adivinhar que todas as minhas turmas serão assim e que vou terminar todos as oficinas Escrita Habitual com a alma aquecida. As pessoas que querem escrever pertencem uma categoria especial. Abrir-lhes a gaiola que as faz voar é um privilégio.

Quando ontem estava a ver o mail, contei sete pré-inscrições para Lisboa. E em Lisboa há tantas praças por onde podemos voar.

(Também publicado no blog Locais Habituais)

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Em caso de dúvida, enterra alguém vivo*

Este é o Edgar Allan Poe e só quem ler tudo até ao fim vai saber porque está aqui a fotografia dele.

Preparando o workshop Escrita Habitual, ando a ler muito sobre as razões que levam as pessoas a escrever ou a não conseguir escrever e ainda sobre como os escritores ultrapassam os bloqueios de escrita. Tem sido muito divertido descobrir que escritores que pensava escreverem até a dormir têm muitas vezes grande dificuldade em começar e desenvolver a sua prosa. Uma escritora americana contou que instalou a sua mesa de trabalho dentro de um quarto de vestir, sem janelas, e obriga o marido a mudar todos os dias a password da internet e a não lha dizer até à noite. Outra escritora só consegue escrever se um conjunto de pedras que têm na secretária estiver colocado de uma determinada forma. Outros sentam-se e ficam a olhar para o ecrã, totalmente em branco, mas só se permitem sair quando tiverem escrito qualquer coisa, mesmo que esse texto seja mau.

Esperava encontrar exemplos destes para criar animação no workshop e tenho encontrado bloqueios mesmo engraçados - e, alegrai-vos, também tenho encontrado soluções de muitas pessoas diferentes que podem ajudar quem quer muito escrever e não sabe como. Porque também somos todos diferentes na nossa expressão e nos nossos lugares de conforto. Eu preciso do silêncio para ler e pensar, mas adoro escrever num café barulhento ou no comboio. Gosto tanto de escrever no meio do burburinho das vozes humanas e em trânsito que já pensei muitas vezes enfiar-me no Alfa até Lisboa (mas ir apanhá-lo a Braga, para ser mais longe) e ficar ali quatro horas a teclar, naquele movimento áspero das rodas a girar nos carris. Quando chego a um café e abro o ipad, é certinho que vou ao editor de texto escrever qualquer coisa.

Por outro lado, há algo de muito confortante nisto dos grande escritores, que escreveram tantos livros, sentirem o mesmo vazio angustiante que nós, cidadãos comuns, que apenas queremos escrever aquele relatório de trabalho para acabar o dia. A diferença entre eles e nós é que eles sabem que vão conseguir, que é uma questão de insistir consigo mesmos, de forçar a concentração a ficar alinhada com as suas ideias - no fundo, é uma questão de disciplina mental. E também de treino, porque a verdade é esta: quanto mais se escreve, melhor se escreve. Nos dias em que tenho uma reportagem para escrever e não sei como começar, é a minha experiência de muitos anos de escrita diária que me ajuda a encontrar meia dúzia de soluções. São arranques que já fiz antes, estruturas de narrativa que já usei muitas vezes e, quando nada mais há, a pura técnica do texto jornalístico - a boa velha pirâmide invertida. Pode não ficar a melhor reportagem da minha vida, porque há sempre momentos em que estamos mais inspirados do que outros, mas será sempre um texto que funciona, que vai comunicar, que vai ser lido e que vai carregar a sua mensagem com eficiência.

Essa será outra reflexão que vos vou pôr a fazer no workshop - vamos deixar o perfeccionismo de lado e simplesmente escrever o que tem que ser escrito. Isto é sobretudo aplicável aos textos profissionais ou de estudo, mas também me tem servido muito bem para escrever neste blog. Eu tenho algo para dizer, escrevo. Às vezes sai melhor, outras vezes sai menos bem, tal como quando se cozinha, se toca uma música ou se pinta um quadro. O processo expressivo também vale por si e não só pelo resultado.
E agora, não digo mais nada ou daqui a pouco estou a dar-vos o workshop todo aqui pelo blog! E depois não temos o prazer de nos conhecer. Nem eu terei o prazer de vos obrigar a escrever o dia todo. 

Ficai com a certeza de há sempre uma solução. Nem que seja a do Edgar Allan Poe (que deveis ler quer gosteis muito do género policial sangrento quer não, porque as histórias dele são empolgantes) que diz o seguinte

When in doubt, bury someone alive.

Em caso de dúvida, enterra alguém vivo. Quando não há mais nada que nos salve, vamos mudar de paradigma e fazer algo selvagem. A escrita é, afinal, como tudo na vida. Além disso, o Edgar Allan Poe é a cara do meu tio Jorge.


*Texto também publicado no blog Locais Habituais

domingo, 19 de janeiro de 2014

A escrita do dia-a-dia é cada vez mais importante

Escrever continua a ser uma das formas mais importantes de comunicação e provavelmente a mais importante, numa altura em que as palavras correm velozmente pela internet. Se o papel se tornará obsoleto como suporte da escrita, se o ecrã será a nova folha de papel do futuro, se teremos muitas ou poucas saudades do cheiro dos livros são perguntas às quais o curso do tempo dará resposta - ou respostas. O que nos importa é que seja qual for o seu canal - o papel ou o ecrã - as palavras continuam a ser escritas e a circular. E agora muito mais depressa do que antes e chegando a muito mais leitores.
Com a banalização do email, com os blogs a permitirem milhões de novos escritores, cronistas e opinadores, com as redes sociais a amplificar mensagens, talvez possamos arriscar dizer que a escrita é cada vez mais importante. Perdeu o seu carácter solene e ganhou importância como expressão diária e quotidiana, imediata e espontânea. É mais fácil mandar um email do que telefonar. É mais simples escrever num blog do que enviar a mesma carta a muitas pessoas... e também continua a ser um prazer escrever longas cartas que depois podem ser enviadas rapidamente num mail.
A escrita é cada vez mais importante no dia-a-dia. E o dia-a-dia cada vez pede mais e melhor escrita. Textos mais cativantes, textos que comunicam melhor, textos mais bem estruturados, textos que fazem com que sejamos lidos, compreendidos, apreciados. Textos que fazem que outras pessoas se sintam inspiradas por nós.

No Porto, no dia 22 de Fevereiro, vamos filosofar sobre a escrita e também aprender técnicas que nos ajudam a ser melhores escritores quotidianos. E, muito em breve, haverá uma data para o workshop de Lisboa. Estão abertas inscrições para o Porto e pré-inscrições para Lisboa, com pouca burocracia - é só mandar um mail com nome e contactos para locaishabituais@gmail.com.

E vamos escrever por aí.

sábado, 18 de janeiro de 2014

Nova data para o Porto: 22 de Fevereiro

Caros amigos, por motivos profissionais da formadora, o workshop do Porto terá que passar do dia 15 de Fevereiro para o dia 22 de Fevereiro, o sábado seguinte. No mesmo local, à mesma hora.

Já viram a promoção para os leitores do blog Locais Habituais? Espreitem lá porque vale a mesmo a pena - se trouxerem mais incscrições além da vossa, podem ter um desconto de 50%, 75% ou até o workshop totalmente grátis.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Começar a escrever, esse caminho espinhoso

No workshop Escrita Habitual, vamos falar sobre o acto de começar a escrever - aquele que é tão difícil para tanta gente. Felizmente para nós, aqueles que precisam de motivação para desatar os nós da sua escrita, a dificuldade em começar a escrever assombra a vida de quase todos os grandes escritores. A diferença entre eles, que escrevem regularmente e que vivem da sua escrita, e os escritores quotidianos é que eles enfrentam esse demónio com tenacidade. A escritora chilena Isabel Allende, autora dos livros A Casa dos Espíritos, Eva Luna e A Filha da Fortuna, por exemplo, começa todos os seus livros no dia 8 de Janeiro, mesmo que no dia 7 de Janeiro tenha o pensamento em branco. No dia 8, aconteceu-lhe muitas vezes ficar horas diante da folha branca, resistindo à sua própria falta de inspiração.
Nós que queremos escrever no quotidiano, não temos essa certeza - como Isabel Allende tem há muito tempo - de que somos capazes de escrever. Por isso, onde podemos ir buscar as armas para combater o demónio que nos bloqueia? 
Começar a escrever é composto por dois actos, sendo que o começar pode ser muito mais difícil do que o escrever. Quando o escrever acontece, é porque já começamos e o pior já passou. Já percorremos uma boa parte desse caminho escuro e frio que é passar da vontade de escrever à prática da escrita. Quem gosta de escrever, quem sente a palavra escrita como a sua forma de expressão natural, sabe como esse caminho é penoso. Quando nos sentamos diante de um caderno ou de teclado, é porque vencemos um dos seus duros obstáculos - encontrar um tempo só nosso e que é só para escrever. Esse tempo é diferente para toda a gente, há quem o encontre no silêncio e na solidão, há quem o encontre na mesa de um café barulhento. 
Encontrar o nosso tempo para escrever não é, contudo, sinónimo de que vamos começar logo a escrever. Se Isabel Allende fica paralisada diante da folha branca, que diremos nós? E se fizéssemos como ela e outros escritores fazem para vencer esse monstro que mantém a nossa inspiração cativa numa prisão que parece inacessível? No Escrita Habitual, vamos falar de formas de chamar a musa e colocá-la ao nosso serviço, abrindo as portas entre as nossas ideias e sentimentos e esse mar imenso que é uma folha para escrever.