terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Em caso de dúvida, enterra alguém vivo*

Este é o Edgar Allan Poe e só quem ler tudo até ao fim vai saber porque está aqui a fotografia dele.

Preparando o workshop Escrita Habitual, ando a ler muito sobre as razões que levam as pessoas a escrever ou a não conseguir escrever e ainda sobre como os escritores ultrapassam os bloqueios de escrita. Tem sido muito divertido descobrir que escritores que pensava escreverem até a dormir têm muitas vezes grande dificuldade em começar e desenvolver a sua prosa. Uma escritora americana contou que instalou a sua mesa de trabalho dentro de um quarto de vestir, sem janelas, e obriga o marido a mudar todos os dias a password da internet e a não lha dizer até à noite. Outra escritora só consegue escrever se um conjunto de pedras que têm na secretária estiver colocado de uma determinada forma. Outros sentam-se e ficam a olhar para o ecrã, totalmente em branco, mas só se permitem sair quando tiverem escrito qualquer coisa, mesmo que esse texto seja mau.

Esperava encontrar exemplos destes para criar animação no workshop e tenho encontrado bloqueios mesmo engraçados - e, alegrai-vos, também tenho encontrado soluções de muitas pessoas diferentes que podem ajudar quem quer muito escrever e não sabe como. Porque também somos todos diferentes na nossa expressão e nos nossos lugares de conforto. Eu preciso do silêncio para ler e pensar, mas adoro escrever num café barulhento ou no comboio. Gosto tanto de escrever no meio do burburinho das vozes humanas e em trânsito que já pensei muitas vezes enfiar-me no Alfa até Lisboa (mas ir apanhá-lo a Braga, para ser mais longe) e ficar ali quatro horas a teclar, naquele movimento áspero das rodas a girar nos carris. Quando chego a um café e abro o ipad, é certinho que vou ao editor de texto escrever qualquer coisa.

Por outro lado, há algo de muito confortante nisto dos grande escritores, que escreveram tantos livros, sentirem o mesmo vazio angustiante que nós, cidadãos comuns, que apenas queremos escrever aquele relatório de trabalho para acabar o dia. A diferença entre eles e nós é que eles sabem que vão conseguir, que é uma questão de insistir consigo mesmos, de forçar a concentração a ficar alinhada com as suas ideias - no fundo, é uma questão de disciplina mental. E também de treino, porque a verdade é esta: quanto mais se escreve, melhor se escreve. Nos dias em que tenho uma reportagem para escrever e não sei como começar, é a minha experiência de muitos anos de escrita diária que me ajuda a encontrar meia dúzia de soluções. São arranques que já fiz antes, estruturas de narrativa que já usei muitas vezes e, quando nada mais há, a pura técnica do texto jornalístico - a boa velha pirâmide invertida. Pode não ficar a melhor reportagem da minha vida, porque há sempre momentos em que estamos mais inspirados do que outros, mas será sempre um texto que funciona, que vai comunicar, que vai ser lido e que vai carregar a sua mensagem com eficiência.

Essa será outra reflexão que vos vou pôr a fazer no workshop - vamos deixar o perfeccionismo de lado e simplesmente escrever o que tem que ser escrito. Isto é sobretudo aplicável aos textos profissionais ou de estudo, mas também me tem servido muito bem para escrever neste blog. Eu tenho algo para dizer, escrevo. Às vezes sai melhor, outras vezes sai menos bem, tal como quando se cozinha, se toca uma música ou se pinta um quadro. O processo expressivo também vale por si e não só pelo resultado.
E agora, não digo mais nada ou daqui a pouco estou a dar-vos o workshop todo aqui pelo blog! E depois não temos o prazer de nos conhecer. Nem eu terei o prazer de vos obrigar a escrever o dia todo. 

Ficai com a certeza de há sempre uma solução. Nem que seja a do Edgar Allan Poe (que deveis ler quer gosteis muito do género policial sangrento quer não, porque as histórias dele são empolgantes) que diz o seguinte

When in doubt, bury someone alive.

Em caso de dúvida, enterra alguém vivo. Quando não há mais nada que nos salve, vamos mudar de paradigma e fazer algo selvagem. A escrita é, afinal, como tudo na vida. Além disso, o Edgar Allan Poe é a cara do meu tio Jorge.


*Texto também publicado no blog Locais Habituais

domingo, 19 de janeiro de 2014

A escrita do dia-a-dia é cada vez mais importante

Escrever continua a ser uma das formas mais importantes de comunicação e provavelmente a mais importante, numa altura em que as palavras correm velozmente pela internet. Se o papel se tornará obsoleto como suporte da escrita, se o ecrã será a nova folha de papel do futuro, se teremos muitas ou poucas saudades do cheiro dos livros são perguntas às quais o curso do tempo dará resposta - ou respostas. O que nos importa é que seja qual for o seu canal - o papel ou o ecrã - as palavras continuam a ser escritas e a circular. E agora muito mais depressa do que antes e chegando a muito mais leitores.
Com a banalização do email, com os blogs a permitirem milhões de novos escritores, cronistas e opinadores, com as redes sociais a amplificar mensagens, talvez possamos arriscar dizer que a escrita é cada vez mais importante. Perdeu o seu carácter solene e ganhou importância como expressão diária e quotidiana, imediata e espontânea. É mais fácil mandar um email do que telefonar. É mais simples escrever num blog do que enviar a mesma carta a muitas pessoas... e também continua a ser um prazer escrever longas cartas que depois podem ser enviadas rapidamente num mail.
A escrita é cada vez mais importante no dia-a-dia. E o dia-a-dia cada vez pede mais e melhor escrita. Textos mais cativantes, textos que comunicam melhor, textos mais bem estruturados, textos que fazem com que sejamos lidos, compreendidos, apreciados. Textos que fazem que outras pessoas se sintam inspiradas por nós.

No Porto, no dia 22 de Fevereiro, vamos filosofar sobre a escrita e também aprender técnicas que nos ajudam a ser melhores escritores quotidianos. E, muito em breve, haverá uma data para o workshop de Lisboa. Estão abertas inscrições para o Porto e pré-inscrições para Lisboa, com pouca burocracia - é só mandar um mail com nome e contactos para locaishabituais@gmail.com.

E vamos escrever por aí.

sábado, 18 de janeiro de 2014

Nova data para o Porto: 22 de Fevereiro

Caros amigos, por motivos profissionais da formadora, o workshop do Porto terá que passar do dia 15 de Fevereiro para o dia 22 de Fevereiro, o sábado seguinte. No mesmo local, à mesma hora.

Já viram a promoção para os leitores do blog Locais Habituais? Espreitem lá porque vale a mesmo a pena - se trouxerem mais incscrições além da vossa, podem ter um desconto de 50%, 75% ou até o workshop totalmente grátis.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Começar a escrever, esse caminho espinhoso

No workshop Escrita Habitual, vamos falar sobre o acto de começar a escrever - aquele que é tão difícil para tanta gente. Felizmente para nós, aqueles que precisam de motivação para desatar os nós da sua escrita, a dificuldade em começar a escrever assombra a vida de quase todos os grandes escritores. A diferença entre eles, que escrevem regularmente e que vivem da sua escrita, e os escritores quotidianos é que eles enfrentam esse demónio com tenacidade. A escritora chilena Isabel Allende, autora dos livros A Casa dos Espíritos, Eva Luna e A Filha da Fortuna, por exemplo, começa todos os seus livros no dia 8 de Janeiro, mesmo que no dia 7 de Janeiro tenha o pensamento em branco. No dia 8, aconteceu-lhe muitas vezes ficar horas diante da folha branca, resistindo à sua própria falta de inspiração.
Nós que queremos escrever no quotidiano, não temos essa certeza - como Isabel Allende tem há muito tempo - de que somos capazes de escrever. Por isso, onde podemos ir buscar as armas para combater o demónio que nos bloqueia? 
Começar a escrever é composto por dois actos, sendo que o começar pode ser muito mais difícil do que o escrever. Quando o escrever acontece, é porque já começamos e o pior já passou. Já percorremos uma boa parte desse caminho escuro e frio que é passar da vontade de escrever à prática da escrita. Quem gosta de escrever, quem sente a palavra escrita como a sua forma de expressão natural, sabe como esse caminho é penoso. Quando nos sentamos diante de um caderno ou de teclado, é porque vencemos um dos seus duros obstáculos - encontrar um tempo só nosso e que é só para escrever. Esse tempo é diferente para toda a gente, há quem o encontre no silêncio e na solidão, há quem o encontre na mesa de um café barulhento. 
Encontrar o nosso tempo para escrever não é, contudo, sinónimo de que vamos começar logo a escrever. Se Isabel Allende fica paralisada diante da folha branca, que diremos nós? E se fizéssemos como ela e outros escritores fazem para vencer esse monstro que mantém a nossa inspiração cativa numa prisão que parece inacessível? No Escrita Habitual, vamos falar de formas de chamar a musa e colocá-la ao nosso serviço, abrindo as portas entre as nossas ideias e sentimentos e esse mar imenso que é uma folha para escrever.