segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Escrita, escrita voa voa


Eu sabia que coisas boas iam acontecer dentro daquela sala de formação, porque já tinha visto isso acontecer antes. Sabia que quando as pessoas dizem que não sabem como dizer isto ou aquilo, já trazem resolvido o maior problema - a falta de assunto. Têm o pensamento a formigar, os dedos a bater nervosos na mesa, a filha branca à frente. Nesse momento, ainda não sabem que tudo aquilo que precisam para escrever já está com elas.
A supresa não foi ver a escrita a soltar-se, com os estímulos certos, depois de falarmos de técnicas e de boas práticas, de aprendermos a detectar o que está a mais ou a menos, de olharmos para os nossos textos munidos destes conhecimentos. Ver alguém perceber que é capaz, é sempre o prémio de quem ensina, mas a surpresa não foi essa. O surpresa foi, no final da tarde, eu ficar com vontade de me calar para sempre e ficar só a ouvir os textos lindos, empolgantes, comoventes, inesperados, que nasceram naquelas folhas brancas. Esperava ver escrita a soltar-se, não estava à espera que onze bons escritores emergissem em apenas algumas horas. 
Os meus onze estavam interessados e concentrados; trabalharam com dedicação mesmo nos exercícios de edição entediantes que lhes propus. Foram severos em relação às suas falhas, quase sempre severos demais. Esse rigor excessivo preocupou-me, mas depois teve o efeito de uma trovoada que limpa o ar. Escreveram sobre momentos que nunca me ocorreu escrever, contruíram frases de maneiras que nunca pensei juntar, coseram palavras como eu nunca tinha cosido, fizeram textos que nos levaram a todos para lugares diferentes daquela sala neutra onde passamos tantas horas juntos. 


Quando fomos dar uma volta na Praça Carlos Alberto, com ela de mesa posta de árvores floridas, o mercado Porto Belo, um céu azul e uma brisa morna, já o meu grupo tinha começado o seu caminho sem retorno. Aquele que os leva a olhar para a sua escrita como um acto consciente, que podem controlar, trabalhar, exercitar e fazer evoluir.
Os exercícios de escrita que resultaram desse passeio foram muito, muito bons. Dez minutos numa praça florida e buliçosa, debaixo de um céu azul, foi quanto bastou para abrir a inspiração e partir o cimento dos bloqueios. É certo que escrevemos através das molduras que eu propus, mas escrever é sempre isso - procurar uma moldura e trabalhar a partir dela.
No final, a Carla disse "passou tão rápido!" e quando hoje fui ver o blog dela - Andorinha boa boa - e encontrei isto, percebi que nenhum minuto se desperdiçou. Foi extraordinário ter começado a minha carreira de mestra de escrita para o dia-a-dia com uma turma daquela categoria. Mas algo me faz adivinhar que todas as minhas turmas serão assim e que vou terminar todos as oficinas Escrita Habitual com a alma aquecida. As pessoas que querem escrever pertencem uma categoria especial. Abrir-lhes a gaiola que as faz voar é um privilégio.

Quando ontem estava a ver o mail, contei sete pré-inscrições para Lisboa. E em Lisboa há tantas praças por onde podemos voar.

(Também publicado no blog Locais Habituais)