quinta-feira, 6 de março de 2014

Para escrever, basta ser aquilo que somos. E meia dúzia de palavras

(Sala do estúdio Xposed, na LX Factory, onde vai ser o Escrita Habitual de Lisboa. DR Miguel Manso)

A oficina Escrita Habitual começa quando as pessoas se inscrevem e lhes peço um trabalho de casa. Quando nos juntamos numa sala para passar o dia a pensar na nossa escrita, a descobrir os nossos caminhos expressivos, a escrever e a editar a escrita, a escolher as palavras melhores e mais cheias do nosso sentido, estamos no segundo momento. O primeiro é íntimo, solitário, secreto. Quando olhamos para trás e analisamos esse momento, compreendemos como ele é muito maior do que parecia. Como o processo que ele iniciou nos diz tanto sobre a nossa relação com a escrita. E sobre as nossa capacidade de a tornar um hábito.

Por isso, quando me perguntam se a oficina Escrita Habitual é um dia, eu tenho que dizer que sim, porque estamos juntos das nove às seis, mas eu sei que o caminho começa antes. Na semana anterior, nos dias anteriores, na noite anterior para alguns. Mas começa antes. Quando nos encontramos, numa sala neutra, já se abriu a tampa do baú da liberdade expressiva e eu só tenho que a segurar para que ela não volte a fechar. 

Eu acredito que toda a gente é capaz de escrever. A escrita não é um território exclusivo de virtuosos ou de diletantes, de artistas ou de filósofos. A escrita é um território de todos os que sabem palavras, os que processam significados, os que pensam, os que vivem. Escrever torna tantos momentos melhores. Só percebemos isso quando encontramos alguma coisa que escrevemos há anos. Quando os nossos parentes que partem nos deixam memórias escritas. Quando um texto lido numa festa ou numa homenagem emociona as pessoas e amplia aquela cerimónia. 

Não é preciso ser sábio, ser intelectual profissional, ter corrido o mundo ou ter lido todos os livros, visto todos os filmes, conhecido milhares de pessoas. Para escrever, basta aquilo que já sabemos e aquilo que queremos dizer - esse é o meu lema. E não vou desenvolver mais, quem quiser ouvir o resto, que apareça na próxima oficina Escrita Habitual!

Quando recebo mails a dizer que a tampa voou para longe e nunca mais volta, fico emocionada. É certo que ao fazer o workshop, ganho dinheiro. O meu objectivo era esse, claro. Mas também me realiza muito enquanto pessoa que acredita que a competência da escrita deve -  e pode - ser ensinada a toda a gente. Que o mundo perde muito porque as pessoas de hoje não escrevem para amanhã. Que as pessoas que sentem o apelo da escrita são mais felizes e mais criativas quando escrevem regularmente. E são mesmo - há estudos que provam que escrever regularmente aumenta o pensamento crítico. 

Por isso, produzi um manual, uma espécie de sebenta de estudo, que é para os meus escritores habituais levarem para casa e consultarem quando quiserem. Podia não o ter feito, deu-me um trabalho enorme e ainda vai dar mais porque será melhorado e ampliado. Ao dar esse manual, sei que o Escrita Habitual vai continuar com as pessoas, vai poder ser recordado. E que, ao relê-lo, as pessoas provavelmente vão continuar a escrever, com a certeza de que são capazes, vão manter-se em contacto com a sua motivação e inspiração.

No dia 22, em Lisboa, vamos passar algumas horas naquela sala porreira do estúdio Xposed, na LX Factory. Vamos cá fora almoçar e absorver o ambiente para depois, no momento que antecipo já de pura magia, como foi no workshop do Porto, jorrarem maravilhas daquelas folhas brancas. E no final, eu despedir-me de gente cansada e alegre, de cujas cabeças quase se podem ver textos a voar para todos os lados.

(Também publicado no blog Locais Habituais)

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