terça-feira, 22 de abril de 2014

Sobre como a tecla 5 me fez uma pessoa melhor

No primeiro dia de férias, o meu iphone avariou. Deixou de carregar. Uma passagem pela Vodafone mais próxima confirmou a nossa suspeita de que mais valia trazer o bicho à assistência técnica da casa mãe, aqui no Porto, e torcer para que seja coisa pouca. Tenho aquele telemóvel há mais de três anos e mudou o meu quotidiano. No início, foi uma mudança muito intensa porque eu tive poucos telemóveis, nenhum com câmara fotográfica ou do estilo smartphone, usei-os até se estragarem ou até os perder e o último foi um Nokia que adorei e usei ainda algum tempo, mesmo depois de se estragar a tecla 5. Só podia ligar para números da memória ou sem cincos e tornei-me perita em mandar sms sem as letras j,k e l.
Depois desse telemóvel, já confirmei noutros contextos que o meu engenho só se revela com grandiosidade nas alturas de escassez, nos apertos ou nas emergências. Olhando em retrospectiva para a minha vida, para a forma como atravessei anos de inquietação interior dando mínimo uso aos meus talentos, concluo que a presença de alguma forma de escassez ter-me-ia certamente feito saltar dessa carruagem em andamento e enfiar-me numas botas de sete léguas. 

Quando falo em escassez, não me refiro especificamente a dinheiro, embora também tenha aprendido muito com a escassez financeira. Falo da escassez de muitas coisas, incluindo as não materiais, como a escassez de interesse pelo trabalho, que sempre me fez saltar para desafios onde aprendi muito, mesmo que em alguns me tenha espetado de frente, nomeadamente quando aceitei ser editora da secção mais dinâmica de um jornal diário. Foram dez meses de sobrevivência física e mental, sendo mãe de uma bebé. Foi uma desgraça a todo o comprimento, mas saí de lá melhor e mais forte. Aliás, acho que sair revigorada e mais forte das tristezas, desgraças, infortúnios e más escolhas é aquilo que melhor define o meu caminho no mundo (e com isto, Sílvia, lembrei-me de uma coisa que me perguntaste, mas depois contamos tudo às pessoas).
Neste caso, não falamos da impactante lucidez que sinto nos momentos de tristeza, como se me saísse um véu de diante dos olhos. Falamos apenas de ter ficado sem um telemóvel que é um pequeno computador onde guardo muitas notas com informações úteis, como números de contribuinte, telefones e passwords que devia ter decorado. Ou ainda do qual recebo e envio emails, mais do que aqueles que seriam necessários porque o email é a nova sms. Onde ia ao facebook por desfastio, embora o facebook seja muito enfastiante. E também onde guardo mais de três mil fotografias que devia ter copiado, de quando em quando, para o computador. Perder essas imagens é que me dói mais, mas ter passado uma semana sem mail, sem facebook, sem internet e sem estar sempre a levar o meu pequeno braço tecnológico para todo o lado foi inesperadamente bom.

Apesar de ser cismenta e melindrosa, com o tempo deixei de ser ressentida e rancorosa, algo que aconteceu naturalmente e sem eu dar por isso. Foram sentimentos que se evaporaram da minha alma sem mais nem menos. A ausência deles faz jeito em geral e aplicou-se também à entrada em coma do meu iphone - foi um suspiro pela tecnologia diária que se foi e mais nada. De maneira que agora sou proprietária de um telemóvel à moda de 2004, com teclas e uma iconografia tipo spectrum, com toques tão anacrónicos que parecem tirados de maus filmes de robôs e tão pequeno e levezinho que andei duas horas com ele no bolso das calças hoje de manhã sem dar conta.
Também está há uma semana sem precisar de ser carregado, o que me traz muitas memórias do meu Nokia que faleceu em 2010. Quando este ficar sem a tecla 5, vou ser uma pessoa muito melhor e irá emergir em mim o canivete suíço de recursos criativos que o iphone estava a obliterar.

Até pode ser que já esteja a acontecer isso porque vim aqui escrever sobre as fotografias que queria ter tirado e não tirei e de como isso me fez criar um novo exercício de escrita para a oficina Escrita Habitual. Escrevo a seguir sobre isso. Por falar em Escrita Habitual, vai haver mais uma edição desse curso que liberta os escritores latentes, fazendo-os rasgar a roupa como Hulks com teclados debaixo do braço, no próximo dia 17 de Maio, no Porto. Inscrições para o mail locaishabituais@gmail.com.

(Post publicado também no blog Locais Habituais)

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